Pelo Natal, o armário da minha avó
cheirava a tangerinas guardadas verdes para que fossem amadurecendo. O aroma
era um mundo em si mesmo, povoado de antecipações recolhidas dentro do
móvel-cenário para a mais antiga memória que me habita.
Era uma noite de vendaval e a
electricidade estava às escuras. Não falhara, por luz da Graça, o candeeiro a
petróleo na mesinha de cabeceira. A minha mãe tinha-me ao seu colo, acolhido
nos seus braços, e amamentava-me no crepúsculo doméstico de um lar que eu ainda
não conhecia.
As portas daquele armário estão ainda
vivas no meu pensamento
e quase as consigo abrir a gosto,
sempre que me apetece uma tangerina,
sempre que me falta colo,
sempre que as trovoadas de inverno me
embalam
sem presságios.
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