15.12.18

Cadernos de Fora | Tombo I # 2 - Caso Verídico


Pelo Natal, o armário da minha avó cheirava a tangerinas guardadas verdes para que fossem amadurecendo. O aroma era um mundo em si mesmo, povoado de antecipações recolhidas dentro do móvel-cenário para a mais antiga memória que me habita.



Era uma noite de vendaval e a electricidade estava às escuras. Não falhara, por luz da Graça, o candeeiro a petróleo na mesinha de cabeceira. A minha mãe tinha-me ao seu colo, acolhido nos seus braços, e amamentava-me no crepúsculo doméstico de um lar que eu ainda não conhecia.



As portas daquele armário estão ainda vivas no meu pensamento

e quase as consigo abrir a gosto,

sempre que me apetece uma tangerina,

sempre que me falta colo,

sempre que as trovoadas de inverno me embalam

sem presságios.

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