15.12.18

Arte-se! : 2ª Fase de Instalação Artística

O jogo de "atira e foge" entra na sua segunda fase, mas com inversão dos protagonistas. Desta vez é Pedro que escreve um texto para que Pedro o represente em pintura. Levantam-se questões que abalam o espírito humano desde a Antiguidade Clássica. A prisão é definitiva? Haverá liberdade sem amarras? A despedida é uma âncora?

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Texto de Pedro C:
Soltou-se da âncora que ficou quando o vazio das coisas transcendeu a sua ausência. Imaginou aeroportos itinerantes viajando de um outro lugar para outro lugar ainda. Aqui era perto demais. Deu-se o caso: no momento do disparo, a lua quase cheia ficou vazia. E assim partiu, finalmente, a bailarina da caixinha de música, projectando-se para fora, ainda que amarrada aos ais da despedida.




Pintura de Pedro G:

Arte-se! : 1ª Fase de Instalação Artística

A partir de uma pintura de Pedro, Pedro produziu um texto. Num ambicioso jogo de "atira e foge", Pedro imaginou a cores o que Pedro veio a ver a preto e branco. Levantam-se questões acerca de como o diálogo surge de um vazio que apenas o é na sua aparência. Comunicam-se universais particularmente contraditórios. Mostra-se como a visão aérea de um ser alado pode ser desconstruída num voo a pique até ao abismo dos nossos eus.

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Pintura de Pedro G:




Texto de Pedro C:

Reconhecido à distancia pela adrenalina que nos injecta, é o risco que, de certo modo, nos impele. Eis que algo de concreto na realidade surge e aflige.

Esquecidos de que na liberdade de certas coisas reverbera a prisão de incertas outras, não se nos dá em lembrar que o fim de tudo é também o início do resto.

O futuro é fruto da morte sequencial dos instantes – mas teimamos na perpétua busca do derradeiro escape, insistindo em não o acolher como ponto final.

Cadernos de Fora | Tombo I # 10 - Natal


Um coelho!

Tudo o que quero pelo Natal é um coelho.

Estou farto de perus.

Cadernos de Fora | Tombo I # 9 - Vinho


O mundo divide-se em dois exércitos de batalha: aquele que bebe vinho à gaita-de-foles tropeçando no etílico sem apontamentos de elegância; e aquele que o bebe como alambique grávido de vida a conta-gotas com laivos de sagrada e divina experiência.

O último comunica com a bênção por via de uma apreciada elevação do espírito. O primeiro comunica com o chão por via do rosto dominado pela gravidade. Conclui-se que o mesmo néctar que eleva para riba igualmente tomba em sentido contrário.

Cadernos de Fora | Tombo I # 8 - Senhoras e Senhores


Doravante, Senhoras. 

Que nos proteja Deus — Ele, mulher sem pronome concordante, nos livre do masculino. O homem é a nova bruxa, a época venatória está mesmo a abrir. O tempo de o domingo ser o dia da Senhora não tardará a existir.

Oremos:
Em nome da Mãe, da Filha e da Espírita Santa.

Cadernos de Fora | Tombo I # 7 - O Jogo


0   1   0
1   0   1
1   1   0

com Marco Evo, e um de nós ganhou

Cadernos de Fora | Tombo I # 6 - Uma Família


Alma minha gentil — que pariste, mulher?



[Alguns anos depois, o romântico casal de vizinhos saiu de casa a meio da noite para visitar um ninho de filhos escondido algures por ali.]

Cadernos de Fora | Tombo I # 5 - Vício


Conto-te um segredo — e prometes não prometer não contar a ninguém. Não é necessária a prisão do silêncio das bocas. Penso em ti quando mergulho na ausência, no encontro frontal com a dureza do nada absoluto — e quando penso noutras coisas é em ti que penso pensando nelas. Outro segredo: quando te deixar serei eu o abandonado. No segredo de te chamar sem voz saberás da despedida que nunca se fez.

Cadernos de Fora | Tombo I # 4 - A Noite


Escura campa do sossego antigo.

Larga cama de desejos por devorar.

Ainda nem jantámos e parece que já cheira

a pequeno-almoço.



Negra frigideira,

urbe de ovos estrelados nos mares dos dias apagados,

das manhãs por acender.

Cadernos de Fora | Tombo I # 3 - Amanhã


Parece que foi ontem ... adormeci com ele aconchegado nos braços à guisa de peluche para conforto sentimental. Senti-lhe o gosto de amanhecer cheio de promessas, de campo aberto ao céu com tempo para ser, trilhos para percorrer, flores para colher e segredos para desvendar. Parece que foi ontem que o tinha como garantia de projectos e novidades. Parece que foi ontem que adormeci com ele nas melodias do seu embalo. Mas agora — que acordo — não o encontro.

Cadernos de Fora | Tombo I # 2 - Caso Verídico


Pelo Natal, o armário da minha avó cheirava a tangerinas guardadas verdes para que fossem amadurecendo. O aroma era um mundo em si mesmo, povoado de antecipações recolhidas dentro do móvel-cenário para a mais antiga memória que me habita.



Era uma noite de vendaval e a electricidade estava às escuras. Não falhara, por luz da Graça, o candeeiro a petróleo na mesinha de cabeceira. A minha mãe tinha-me ao seu colo, acolhido nos seus braços, e amamentava-me no crepúsculo doméstico de um lar que eu ainda não conhecia.



As portas daquele armário estão ainda vivas no meu pensamento

e quase as consigo abrir a gosto,

sempre que me apetece uma tangerina,

sempre que me falta colo,

sempre que as trovoadas de inverno me embalam

sem presságios.

Cadernos de Fora | Tombo I # 1 - Início


Quando tudo começou já o resto havia terminado.

Não houve vénias, nem aplausos,

nem panos a correr na pressa de luzes por acender.



O tempo fez tic-tac uma única vez - e tudo foi.



O joelho tocou o joelho,

a mão escorregou para a mão,

um dos lábios humedeceu o outro.



No fim de duas vidas estava o início de uma

e ninguém reparou.

Cadernos de Fora | Fora



Cadernos de Fora

 
Aberto Ai 
(PG)

Bernardo Luz 
(AS)

Marco Evo 
(PC)

P de Jesus 
(alter ego de Marco Evo)



Numa semi-apropriação das palavras de Bernardo Luz pela altura do lançamento deste modesto projecto literário: três almas radicalmente diferentes encontram-se no que lhes é comum, produzindo um elo mútuo de entendimento e escape ao caos da intimidade mental. 

A fuga vacila entre a Noruega, a Lua e o Mais Além. Estar fora é a única via de encaixe num mundo onde não se cabe.